Se o jogo toma as rédeas e você se sente ofendido, com quem você reclama?

Se você procurar bem – ok, não tão bem assim – vai encontrar um certo mod de Half-Life 2, totalmente gratuito, chamado The Stanley Parable. Se você ainda não jogou, sugiro que a situação seja remediada o mais rápido possível, especialmente por que ele pode ser terminado em menos de meia hora. Se jogou, vai se lembrar de que trata-se de um jogo em primeira pessoa, onde um narrador lhe ludibriava repetidamente, tentando convencê-lo de que você tinha a liberdade total para fazer o que quisesse, o que era uma completa mentira.

Esse jogo levantou – diabos, foi tão pouco falado que ainda levanta – uma imensa discussão sobre narrativa, a falta de narrativa, a ilusão que os jogos tentam passar de oferecer escolhas, a desesperança que temos quando deixamos o manto do herói e somos transformados em meras marionetes de uma narrativa – o que, se pensarmos bem, sempre acontece em certa medida –  e mais um monte de outros sentimentos e loucuras que batem na nossa mente quando somos apresentados à uma proposta completamente diferente em um meio ao qual estamos acostumados. The Stanley Parable parece muito simples, mas é inegavelmente complexo em sua simplicidade e garante uma experiência única para cada pessoa. Foi difícil engolir certas verdades, mas me tocou profundamente na época.

No entanto, nem todos entendem uma mensagem assim, então o estúdio responsável – acredito que se trata de um cara só – resolveu fazer piada com as respostas que receberam, chamando o incrível personagem “The Narrator” – e seu incrivelmente talentoso ator – para responder aos comentários. O resultado é tragicômico:

No vídeo, o narrador responde ao email de Raphael – que, por algum motivo, eu acho que é brasileiro, posso estar redondamente enganado. No email, o rapaz fala sobre como os jogos são sobre “sentir-se poderoso” e “fazer coisas que eu não posso fazer na vida real”, até chegar na máxima de que “no final do jogo, achei que não cumpri nada relevante”. Todos os argumentos seriam válidos se o jogo estivesse tentando cumprir qualquer objetivo parecido com o que temos como jogos eletrônicos nos dias de hoje. Ou seja: se The Stanley Parable estivesse preocupado em desenvolver uma narrativa clássica, focado em entreter seu jogador e deixá-lo satisfeito, todos os argumentos valeriam. O problema é que o jogo não está preocupado com isso, ele quer te deixar inquieto e pensativo, quer te mostrar alguma coisa – que, no final, só você vai saber o que é – que não é explícita, que não está te mostrando o caminho fácil, por que é isso que a arte precisa fazer conosco. Se você quer que as pessoas pensem, não adianta entregar um “grande manual de regras”, elas não vão ler isso. Pior: elas podem ler e não apreender conhecimento nenhum. Criar uma experiência pessoal e imaginativa é tão errado assim?

Enfim, vale a inscrição.

[There is a google translated version in english for foreigners, it’s badly translated though: http://tidypub.org/ohvSs]

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VL : Cobertura – Cine-debate durante o ENEArte 2012 / Jogue o Duplo e HU

Durante o Encontro Nacional de Estudantes de Arte (ENEArte) desse ano, estão acontecendo ciclos de debates e palestras sobre diversos assuntos ligados ao mundo das artes, desde performances até filmes, na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Eu acabei cobrindo o trabalho apresentado pela minha namorada, a graduanda Mariana Rocha, que fez uma dupla com a também graduanda Nathalie Tesch. As duas criaram a proposição Jogue o duplo, onde convidam outros alunos e visitantes a criar e jogar seu próprio “duplo” – uma espécie de escultura feita de plástico moldada no próprio corpo – ao invés de jogar a si mesmo, trazendo à tona a discussão sobre o suicídio e a depressão. A proposição conta com um vídeo, que foi mostrado antes do debate começar.

Ao lado da dupla, a doutoranda e fotógrafa Joana Traub Csekö, que co-produziu o documentário HU, focado na história do edifício em que o hospital universitário da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) ficava. Durante muito tempo, metade do edifício permaneceu interditado, até ser demolido no ano passado. Ambas, a dupla de graduandas e a doutoranda, discutiram a relação da arquitetura com a vida cotidiana, tema recorrente nas duas obras.

[Créditos musicais: Gnossiene 1, composto por Erik Satie, cortesia do intérprete Nikolay_G]

[ATUALIZAÇÃO]
Essa é a gravação do dia 26/07, onde Mariana Rocha e Nathalie Tesch continuaram a discussão após a exibição de alguns curtas.

Moebius protagoniza a história de hoje

Na semana passada, eu escrevi um pouco sobre o incrível artista Moebius, mestre de uma escola de quadrinhos européia muito importante, que falecera dias antes. Essa semana, Mark Askwith trouxe uma história com o próprio Moebius como protagonista.

Apresento à vocês, então, essa excelente história real.

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