O que aprender do conto de fadas japonês, Kaguya Hime?

Arte original: Tomoji Noda

Arte original: Tomoji Noda

Outro dia, li Kaguya Hime – também traduzida a Lenda da Princesa Kaguya, ou o Conto do cortador de Bambu. A história é bastante simples, então vou recontá-la rapidamente da versão que li (escrita por Satoru Mabuchi e traduzida por Ronald L Kibler).

Um velho lenhador cortava bambu uma noite, quando encontrou dentro de um bambu uma criança. Ele levou essa criança para casa, e ele e sua esposa a chamaram de Kaguya. A menina tinha a pele tão branca que começaram a chamá-la de princesa Kaguya – ou Kaguya Hime. Quando a menina cresceu, atraiu a atenção de muitos rapazes, que a presenteavam frequentemente, tornando a família dela bastante rica. No entanto, Kaguya não tinha interesse nos pretendentes. Ela fazia perguntas complicadas que deixavam os rapazes perplexos.

Pouco tempo depois, Kaguya mostrava sinais de ficar cada vez mais doente. Todas as noites, Kaguya olhava para a lua e sentia uma grande tristeza. Quando a menina estava para completar 17 anos, começou a ficar doente e disse a seus pais que: “A verdade é que eu vim da lua, logo logo as pessoas da lá vão voltar para me buscar, e vou ter que me despedir de vocês”. Assustado, o casal decidiu avisar ao Imperador do que Kaguya lhes contou.

Finalmente, chegou o dia em que chegou o povo da lua. Mas o Imperador havia se apaixonado por Kaguya, e colocou todo o seu exército de samurais para protegê-la. Naquela noite, a lua cheia se acendeu como o sol. Então, enquanto a lua brilhava intensamente, desceu uma carruagem puxada por touros, cheia de pessoas da lua. Os soldados não puderam parar o povo da Lua, pois a luz era muito intensa.

“Vovô e vovó, muito obrigado por cuidarem tão bem de mim. Agora chegou a minha hora, preciso voltar para a lua; Prometam-me que sempre vão cuidar bem um do outro e de sua saúde. Adeus”. E com lágrimas nos olhos, Kaguya-hime subiu para os céus.

Certo, isso foi um pouco depressivo. Então, existem dois pontos muito interessantes nesse pequeno conto que lida com alguns assuntos que são pouco explorados em contos de fadas. O primeiro é o mais simples: alienígenas.

Nossa mente está sempre preocupada com o todo o tipo de pergunta complicada. Mesmo em uma época em que pouco se sabia sobre o universo e seu funcionamento, a própria noção de que poderiam existir seres vivos em outros astros já era impressionante. A jovem Kaguya-hime é o típico ser de outro mundo: mais bonito e inteligente do que nós, qualquer pretendente é deixado de lado pois estão todos abaixo de seus padrões. Apesar de um pouco patriarcal – como todas as civilizações restantes – essa história foi um marco por ser uma espécie de “pré-ficção-científica”, no tanger de que trata de um assunto bastante explorado no gênero.

O outro ponto é mais complicado e lida com contexto. Apesar de Kaguya certamente se tratar de uma jovem que age como um anjo ou uma entidade divina – trazendo riqueza e se preocupando com o casal de velinhos – acredito que esse é mais um conto sobre a morte e sua aceitação. Pode ser que eu esteja analisando demais, mas esse é um conto que traz um pouco do que entendemos como morte, principalmente quando estamos falando de crianças. O conceito de que vamos todos morrer e o medo dessa morte pode ser percebido, especialmente se você considerar uma simples afirmação: nem mesmo o próprio Imperador pode impedir que Kaguya-hime vá embora para a Lua/morra. Isto está acima do poder de um descendente direto de deus, está acima de qualquer um de nós.

Então, se Kaguya está partindo para o outro mundo, seria de se esperar que ela fosse levada por anjos ou outros seres sobrenaturais, e nesse caso o povo da lua serve bem ao propósito, vindo numa carruagem de touros e trazendo uma luz que cega os soldados do Imperador.

Enfim, vale a informação e a busca por outros contos assim, não é?

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The Silent History: Como usar o espaço urbano para contar histórias

Existem muitas maneiras de contar histórias hoje em dia. No entanto, o que são histórias se não momentos e fragmentos de nossas vidas que cortamos e formatamos para apresentar aos nossos ouvintes? Contar histórias é vivenciar e repassar experiências. Mas, e se você pudesse visitar determinado lugar que serviu de inspiração para um contador de histórias? E se a única maneira de experimentar essa história fosse indo até essa fonte de inspiração? Ainda bem que, com a tecnologia de localização global dos smartphones de hoje isso é possível.

The Silent History é um app (disponível para iPhone e iPad) projeto de Eli Horowitz, ex-editor chefe da revista americana McSweeney’s – especializada em publicar textos literários  – que tenta “reinventar o livro” ou, pelo menos, experimentar um pouco com novas formas de contar histórias. Para isso, ele utiliza duas frentes: uma série de relatos diários, com diversos personagens e recortes espalhados por locais do território americano.

Infelizmente, a primeira leva de histórias só poderá ser acessada se você morar nos Estados Unidos. No entanto, esse app também é uma ferramenta que pode ser utilizada por escritores para vender suas histórias utilizando essa tecnologia. Será que o mundo literário acabou de ficar mais cibernético?

Ouça todo o terror de Lovecraft em audiolivros nacionais (grátis)

Howard Phillip Lovecraft foi um escritor particularmente prolífico no início do século XX, que morreu cedo e deixou órfãos uma quantidade imensa de amantes da literatura de terror. No entanto, sua obra marcou para sempre os gêneros do terror e da ficção-científica, apesar do reconhecimento ter sido póstumo.

Nos últimos meses, sabe-se lá por quê, uma série de ótimos podcasts acabaram chegando à meus ouvidos sobre o escritor e sua obra. De fato, os mais interessantes foram o apresentado pelo Marcelo Dior, no Vozes da Terceira Terra, e o papo mais descontraído do Jovem Nerd – que eu considero já conhecido por todos.

Além disso, na tentativa de encontrar uma imagem para ilustrar esse post, acabei tropeçando em uma história em quadrinhos gratuita baseada em um conto de Lovecraft, que eu não sei se é boa mas pode valer à pena – e de graça, até injeção.

Por fim, o link que estou enrolado pra dar, cortesia do sitelovecraft.com (que vai lançar um livro de contos selecionados) e de Lauriston Trindade, contos do autor em formato de áudio, pros que preferem parecer descolados no metrô fingindo que ouvem música quando na verdade estão lentamente enlouquecendo.

Cthulhu f’taghn, lembrem-se bem!